O FIM DA ERA DE OURO DO STREAMING: MERCADO AUDIOVISUAL VIVE SUA MAIOR VIRADA DESDE A CHEGADA DA NETFLIX

Por muito tempo, a narrativa parecia escrita em pedra: o streaming havia vencido. A TV linear, com sua grade fixa e seus intervalos comerciais, seria relegada ao museu da comunicação. Mas 2026 está provando que o roteiro era mais complexo do que até mesmo Hollywood poderia supor. De um lado, as plataformas que prometeram revolucionar o consumo audiovisual enfrentam fusões bilionárias, aumentos sucessivos de preços e fuga de assinantes. De outro, os chamados FAST channels — canais lineares gratuitos sustentados por publicidade, como Pluto TV, Samsung TV Plus e The Roku Channel — vivem uma expansão acelerada, atraindo anunciantes e dando impulso a maior reconfiguração do mercado audiovisual desde que a Netflix deixou de enviar DVDs pelo correio.

 

O fim da farra do streaming

 

A consolidação que se desenha no setor é sintoma claro de esgotamento. A fusão entre Paramount e Skydance, concluída em 2024 e cujos desdobramentos seguem reorganizando o catálogo do Paramount+, foi apenas o primeiro grande movimento. Desde então, rumores envolvendo Warner Bros. Discovery e Comcast — com possível desmembramento da NBCUniversal e absorção de ativos da HBO Max — alimentam um clima de “reorganização permanente”. A própria Disney, depois de assumir o controle integral do Hulu, tem revisado sua estratégia global, enquanto a Netflix, isolada na liderança, eleva preços e endurece a política contra compartilhamento de senhas.

 

A motivação é financeira. Depois de uma década queimando caixa para produzir conteúdo original, os grandes estúdios descobriram que streaming, sozinho, não paga a conta. O custo de aquisição de assinantes subiu, o cancelamento bateu recordes em vários serviços, e a chamada “fadiga de assinatura” entrou definitivamente no vocabulário do consumidor. Pesquisas recentes apontam que o americano médio mantém três a quatro serviços simultâneos, mas cancela ao menos um por trimestre, num movimento conhecido como “streaming hopping”: assina para maratonar uma série, cancela em seguida, volta meses depois.

 

A resposta das plataformas tem sido dolorosa para o público. Disney+, Max, Paramount+, Apple TV+ e até a Netflix passaram por aumentos sucessivos nos últimos 18 meses. Planos sem anúncios ficaram proibitivos, empurrando o consumidor para tiers patrocinados — modalidades de assinatura com intervalos comerciais – exatamente o modelo que o streaming jurou aposentar. Para o assinante, o resultado é paradoxal: paga-se mais, vê-se mais publicidade e, ainda assim, encontra-se menos conteúdo, já que catálogos foram enxugados para reduzir custos de licenciamento e direitos residuais.

 

FAST channels: o linear renasce pela porta dos fundos

 

Enquanto o streaming tradicional reorganiza suas peças, um movimento silencioso ganha escala impressionante. Os FAST channels — sigla para Free Ad-Supported Streaming TV — reproduzem na internet a lógica da TV aberta: canais lineares, grade fixa, programação contínua e zero mensalidade. Plataformas como Pluto TV (da Paramount), Samsung TV Plus, The Roku Channel, Tubi (Fox) e Xumo, estes dois últimos ainda indisponíveis por aqui, já oferecem centenas de canais temáticos, de notícias 24 horas a maratonas de séries cults, como “Bonanza”, passando por canais dedicados exclusivamente a um único programa, como “MasterChef” ou “CSI”.

O crescimento é vertiginoso. Estimativas de mercado projetam que a receita publicitária global dos FAST channels ultrapassará 18 bilhões de dólares em 2027, mais que o dobro do registrado em 2023. Nos Estados Unidos, o tempo médio diário gasto em FASTs já rivaliza com o de serviços pagos como Hulu e Peacock. No Brasil, Samsung TV Plus e Pluto TV avançam com canais nacionais, incluindo parcerias com Band, Jovem Pan e produtoras independentes.

A migração dos anunciantes explica o fenômeno. Marcas que historicamente investiam pesado em TV aberta encontraram nos FAST channels três vantagens combinadas: o alcance massivo da grade linear, a precisão de segmentação do digital e um inventário publicitário relativamente barato, ainda longe da saturação. Para o anunciante, é o melhor dos dois mundos — o impacto da TV com a mensurabilidade da internet. Plataformas DSP integradas e dados de smart TVs permitem campanhas hipersegmentadas por bairro, perfil demográfico e até por modelo de televisor.

 

O que muda para quem assiste

 

Para o consumidor, o cenário é de reacomodação. A promessa original do streaming — pagar pouco por tudo, sem comerciais, quando quiser — virou miragem. Em seu lugar, surge um ecossistema híbrido: assinaturas premium reservadas a um ou dois serviços, complementadas por FASTs gratuitos para consumo cotidiano, esportes ao vivo retornando às emissoras abertas e pacotes “bundle” que combinam streamings concorrentes a preços negociados, replicando o velho modelo de TV a cabo que tanto se quis enterrar.

Há perdas e ganhos. Perde-se a simplicidade e a sensação de fartura ilimitada que marcou os primeiros anos da Netflix. Ganha-se diversidade de modelos, retorno do conteúdo gratuito de qualidade e, talvez, alguma sanidade econômica para um setor que vinha operando no vermelho. A grande ironia é que, depois de uma década anunciando o funeral da TV tradicional, o futuro do audiovisual se parece cada vez mais com seu passado: canais lineares, comerciais e escolhas guiadas por uma grade. Só que agora, na tela conectada, com algoritmo embutido e o controle remoto substituído pelo touchpad. O streaming não morreu — apenas descobriu, da pior forma, que reinventar a televisão é mais difícil do que parecia.

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