CANNES 2026: DIRETOR ROMENO GANHA SUA SEGUNDA PALMA DE OURO E BRASIL BRILHA NAS MOSTRAS PARALELAS
A 79ª edição do Festival de Cannes, realizada entre 12 e 23 de maio de 2026 na Riviera Francesa, terminou com a consagração do romeno Cristian Mungiu, que conquistou sua segunda Palma de Ouro com “Fjord”, drama familiar sobre um casal de migrantes que, ao mudar-se para uma cidade progressista da Noruega, vê a educação ultrarreligiosa dada aos filhos ser confrontada pela comunidade local. Mungiu, que já havia levado o prêmio máximo em 2007 por “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, torna-se assim o décimo cineasta a vencer duas vezes a principal honraria do evento. “Recebo com grande humildade; muitos grandes diretores nunca ganharam”, declarou o realizador à agência ANSA.
A noite de premiação, comandada pelo júri presidido pela atriz Juliette Binoche, distribuiu troféus por uma seleção marcada pela ausência de longas norte-americanos (apenas dois títulos dos EUA estavam na competição) e pela inexistência de filmes 100% brasileiros na disputa principal — o que não impediu uma presença nacional decisiva nas mostras paralelas. O Grande Prêmio do Júri foi para “Minotaur”, do russo Andrey Zvyagintsev, após anos longe do festival, enquanto o Prêmio do Júri ficou com “The Dreamed Adventure”, da alemã Valeska Grisebach. A categoria de Melhor Direção terminou empatada entre a dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi, por “La Bola Negra”, e o polonês Paweł Pawlikowski, por “A Terra do Meu Pai”. Houve empates ainda em atuação: Virginie Efira e Tao Okamoto dividiram o prêmio de Melhor Atriz por “Soudain”. Já Emmanuel Macchia e Valentin Campagne foram ambos contemplados com o prêmio de Melhor Ator por “Coward”. Nas duas disputas, ficou evidente a intenção de celebrar jovens talentos. O troféu de Melhor Roteiro foi entregue a Emmanuel Marre, por “Notre Salut”, e a Câmera de Ouro, destinada à melhor estreia, premiou “Ben’imana”, da ruandesa Marie Clémentine Dusabejambo.
Brasil em destaque
A maior celebração brasileira aconteceu na mostra Un Certain Regard, onde “Elefantes na Névoa” (Elephants in the Fog), do nepalês Abinash Bikram Shah, levou o Prêmio do Júri — um dos prêmios mais relevantes da competição, depois da Palma de Ouro. Coprodução entre Nepal, Brasil, Alemanha, França e Noruega, o longa tem assinatura brasileira robusta feita pela Bubbles Project, de Tatiana Leite e pela Enquadramento Produções, de Leonardo Mecchi. Ambientado num vilarejo nepalês à beira de uma floresta de elefantes selvagens, o filme acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, após o desaparecimento de uma das filhas.
Antes da premiação, o filme já havia conquistado, na semana anterior, o Prix de la Meilleure Création Sonore da La Semaine du Son, dentro do próprio festival — reconhecimento direto ao trabalho brasileiro de som, conduzido por Pedro Sá Earp (captação, gravada no Nepal) e finalizado em São Paulo na Confraria de Sons & Charutos, com Henrique Chiurciu (desenho), Daniel Turini (mixagem) e Fernando Henna (supervisão). “Ganhar o Grande Prêmio do Júri é gigantesco”, celebrou Tatiana Leite. Mecchi, por sua vez, frisou que a vitória “evidencia a força das coproduções” A Imovision distribuirá o título no país.
Outro feito relevante veio da mostra La Cinef, dedicada a escolas de cinema. O paulistano Lucas Sendacz Acher conquistou o Primeiro Prêmio — o Troféu Cinéfondation — com o curta “Laser-Gato”, rodado no centro de São Paulo. Acher foi o único diretor brasileiro com uma produção na seleção oficial em competição em 2026, e seu trabalho conquistou o júri presidido pela espanhola Carla Simón.
Na Quinzena dos Realizadores, a presença brasileira veio através de uma coprodução Brasil-Chile. “La Perra”, da cineasta chilena Dominga Sotomayor, produzida no lado brasileiro pela RT Features, de Rodrigo Teixeira, a produção conta com a participação de Selton Mello no elenco. A obra também foi celebrada com a Palm Dog — prêmio paralelo da crítica internacional para a melhor atuação canina — atribuída a Yuri, cadela resgatada por meio da ONG Mirada Animal Chile.
Num ano onde o país não levou nenhum filme nacional para a disputa pela Palma – depois de toda a repercussão de “Ainda Estou Aqui” em 2024 e “O Agente Secreto”, em 2025, o saldo demonstra a maturidade técnica das produtoras locais e a centralidade das coproduções como estratégia de internacionalização do audiovisual brasileiro.
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