É espantoso que a indústria cinematográfica de Hollywood, responsável por imortalizar tantas histórias, não tivesse ainda um museu dedicado à trajetória da sétima arte. Mas agora, finalmente, um sonho acalentado há 92 anos, desde a fundação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), responsável pelo Oscar, a principal premiação do segmento, se transformou em realidade e a entidade finalmente inaugurou, em 30 de setembro, o Academy Museum of Motion Pictures. Localizado em Los Angeles, na Califórnia, o espaço oferece uma imersão na trajetória do cinema, desde o século XIX com os irmãos Lumiére até os dias atuais. Suas instalações são totalmente dedicadas ao registro da história e ao estudo da ciência e impacto cultural desta importante indústria ligada ao entretenimento. É o primeiro museu em grande escala desse tipo nos Estados Unidos, idealizado para agradar cinéfilos de carteirinha, assim como fãs casuais, com uma coleção de adereços, exposições, mostras e eventos celebrando a produção de filmes na capital do cinema. E a Rush Video, produtora de conteúdo audiovisual localizada em Campinas, interior de São Paulo, há 25 anos no mercado acompanhando as transformações desse setor, não poderia deixar de conferir essa novidade, reconhecendo assim a importância da preservação do patrimônio documental para o registro, estudo e acesso à informação.

Relíquias da indústria cinematográfica mais famosa do mundo estão reunidas no novo museu, instalado em uma loja de departamentos reformada da May Company. O projeto idealizado pelo arquiteto italiano Renzo Piano, um dos expoentes da chamada arquitetura high-tech, que tem em seu currículo o Centro Georges Pompidou, em Paris, custou quase U$500 milhões, o equivalente a mais de R$ 2,5 bilhões, e só foi finalizado graças a uma campanha por doações de estúdios, celebridades e executivos, liderada pelo ator Tom Hanks, que contabilizou mais de 13 mil colaboradores. Originalmente previsto para abrir as portas em 2020, a inauguração foi adiada devido à pandemia COVID-19. Para marcar a data, foi realizado um baile de gala, com a presença de celebridades e nomes importantes da sétima arte. A noite comemorativa incluiu a entrega de prêmios patrocinados pela Rolex, que agraciou o cineasta independente Haile Gerima, por sua relevante contribuição à indústria, e a atriz italiana Sophia Loren pelo conjunto e sua obra. Bob Iger, CEO da The Walt Disney Company, a atriz Annette Bening e Tom Hanks também foram homenageados com o Pillar Award por sua liderança na recém-concluída campanha para a construção do museu.

 

Museu do Futuro

A fachada com ares futuristas conta com uma estrutura esférica construída como uma extensão do edifício principal, onde fica o Dolby Family Terrace, que tem como destaque a sua cúpula de vidro. O museu possui duas salas de teatro, uma com 1000 e outra com 288 lugares, que serão utilizadas para exibição de filmes, programação e outros eventos especiais. O saguão, logo na entrada, inclui áreas de exposição, como uma galeria patrocinada pela Família Spielberg e a outra por Marilyn e Jeffrey Katzenberg, um poderoso executivo da indústria e sua esposa. Em outro de seus inúmeros espaços, há uma grande tela mostrando cenas de Cidadão Kane, obra-prima de Orson Welles, tido por muitos como um dos melhores filmes já produzidos, além da exibição de adereços do filme, como o trenó vermelho, chamado Rosebud. Já o Shirley Temple Education Studio é uma área totalmente dedicada a realização de workshops sobre produção de filmes.

Mais do que simplesmente expor itens, o Academy Museum oferecerá uma extensa programação com mostras e eventos, comemorativos e educacionais, dedicados a contar as muitas histórias por trás dos filmes – sua arte, tecnologia, artistas e impacto social. Para isso conta com exposições rotativas, como a dedicada ao diretor Spike Lee, que mostra suas diversas fontes de inspiração, da capa de um álbum de John Coltrane a uma das guitarras de Prince; e uma retrospectiva da obra do aclamado cineasta japonês de animação do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki.  O museu também tem como objetivo jogar os holofotes sobre as muitas profissões que atuam nos bastidores e que continuam tão essenciais para o cinema. É possível, por exemplo, conferir o trabalho dos chamados foley artists, profissionais responsáveis pela produção de efeitos sonoros, ao recriar o som da corrida de Harrison Ford em ”Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida” batendo com os pés no chão de um estúdio. Já a exposição sobre figurinos mostra as máscaras feitas para estrelas como Grace Kelly e Clark Gable, usadas para posicionar perucas e barba, assim como os dentes protéticos que Charlize Theron usou em “Desejo Assassino” (Monster), de 2003, filme que lhe rendeu uma estatueta de Melhor Atriz. Na exposição “Cenário de Fundo – Uma Arte Invisível” é possível ver a Instalação de pé-direito duplo que apresenta a pintura do Monte Rushmore usada em “Intriga Internacional” (1959), de Alfred Hitchcock.

Mas também não dá para deixar de mencionar o acervo gigantesco com mais de 13 milhões de objetos, incluindo fantasias, rolos de filmes, pôsteres, adereços e roteiros, alguns itens, de valor inestimável, que datam dos primórdios do cinema. Entre os destaques então as sapatilhas de rubi de Dorothy em “O Mágico de Oz” (1939) e a máquina de escrever usada por Alfred Hitchcock para idealizar o roteiro de “Psicose” (1960), além do único molde de tubarão remanescente do clássico de Steven Spielberg, de 1975, bem como o  modelo da nave espacial Aries 1B e um traje espacial usado por Keir Dullea em “2001: Uma Odisseia no Espaço” e uma capa usada por Bela Lugosi em “Drácula” (1931). O cinema nacional, aliás não está de fora. O brasileiro Bernardo Rondeau, curador da programação das salas de cinema do museu, afirmou em entrevistas que é possível encontrar um pouco de Brasil por lá. “Temos um pôster lindo, francês, acredito, do filme ‘Pixote’, de Hector Babenco. Trata-se de uma peça pertencente ao cineasta Spike Lee, um fã declarado desta produção, além de imagens de “Cidade de Deus’”, produção que rendeu Fernando Meirelles, uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor, além de nomeações nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado, Fotografia e Montagem”, disse o curador.

A entrada custa 25 dólares para adultos e pessoas até 17 anos não pagam. Por uma taxa extra de 15 dólares é possível viver uma experiência inusitada. Ao atravessar cortinas vermelhas ondulantes, o visitante chega a um pequeno palco. Graças a um jogo de luzes e a projeção de centenas de celebridades aplaudindo, é possível experimentar a sensação que os agraciados com os Oscar têm no momento em que recebem suas estatuetas e fazem seus discursos de agradecimento pelo prêmio. Uma cópia de vídeo eternizando o momento fica disponível depois como lembrança. Afinal, trata-se de um museu sobre uma indústria que vive de registrar para a posteridade histórias, sonhos e ideias.

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