Veneza, o Festival de cinema mais antigo do mundo segue firme e, a exemplo do ano passado, realizou mais uma edição na primeira quinzena de setembro, apesar do contexto da pandemia. Uma constelação de astros, como Kristen Stewart, Matt Damon, Penélope Cruz, Antonio Banderas, Tim Roth, Adam Driver e Dakota Johnson, cruzaram o seu 78ª tapete vermelho, apartados do público por um muro para evitar aglomerações. O forte esquema de segurança incluiu ainda a exigência de passaporte sanitário, locais reservados, uso de máscaras e medidas rígidas de higienização. Mas apesar de toda a preocupação, a Covid-19 não foi capaz de ofuscar a festa. O júri este ano foi presidido pelo cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, do premiado “Parasita”, que conduziu a cerimônia de premiação realizada em tempo recorde, possivelmente devido aos cuidados necessários com a pandemia. A Rush Vídeo, produtora de Campinas, interior de São Paulo, há mais de 25 anos produzindo conteúdo audiovisual e uma amante da sétima arte, acompanhou de perto o evento, que faz um panorama das produções que devem chegar às telas em breve.

 

Premiados

O Leão de Ouro, principal prêmio do festival, foi para “L’événement”, da diretora francesa, de origem libanesa, Audrey Diwan e assim as mulheres seguem faturando os prêmios mais relevantes, a exemplo de Cannes e do último Oscar. Estrelado por Anamaria Vartolomei, o filme é uma adaptação do romance homônimo de Annie Ernaux sobre o aborto, quando o procedimento ainda era ilegal na França dos anos 1960. Um tema sempre polêmico e que rende debates acalorados. “Eu fiz meu filme com raiva, com desejo, mas também com meu instinto e minha razão”, afirmou a cineasta visivelmente emocionada com o resultado. Já o Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri foi conquistado por Paolo Sorrentino com “É Stata la Mano di Dio”, que aborda o impacto da perda dos pais durante uma fase tão conturbada como a adolescência. O Leão de Prata – Melhor Diretor (a) foi para Jane Campion, da Nova Zelândia por “The Power of the Dog”, um drama ambientado na década de 1920. “É importante para um cineasta mostrar seu filme para o público nesse contexto que estamos vivendo”, ressaltou Campion em seu discurso. Vale ressaltar que a cineasta neozelandesa é a segunda entre cinco mulheres nomeada para o Oscar de Melhor Direção e a primeira na história a receber a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes, com o filme O Piano (1993), pelo qual também ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original. A espanhola Penélope Cruz levou o prêmio Coppa Volpi de melhor atriz, por seu intenso desempenho em “Madres Paralelas”, de Pedro Almodóvar. A atriz agradeceu ao diretor dizendo que o prêmio é 100% dele. “Agradeço também por sua confiança inspirando-me dentro e fora do set. Não poderia estar mais orgulhosa de ter participado do filme”, afirmou a atriz. Na categoria melhor ator, o vencedor foi John Arcilla por sua atuação em “On The Job: The Missing 8”, de Erik Matt. O Leão de melhor roteiro foi conquistado por Maggie Gyllenhaal, pelo filme “The Lost Daughter”, que marca sua estreia como diretora. E o Prêmio Especial do Júri foi conquistado por “Il Buco”, do italiano Michelangelo Frammartino.

 

Brasil marca presença na festa

O Brasil marcou presença com “7 prisioneiros”, produção da Netflix, que foi lançada durante o festival na mostra paralela Orizzonti Extra, que celebra filmes autorais de estilo único. O longa é estrelado por Rodrigo Santoro, no papel de um vilão, e Christian Malheiros, da série “Sintonia” e traz uma reflexão sobre escravidão contemporânea. A trama ambientada em São Paulo, acompanha a história de um jovem (Malheiros) preso em um sistema de trabalho análogo à escravidão, conduzido pelo violento Luca (Santoro). “Envolvente”, “brutal” e “poderoso” foram alguns dos adjetivos usados pela crítica estrangeira para classificar o longa brasileiro. O drama é o segundo filme do diretor Alexandre Moratto, 33 anos, que já havia arrebanhado elogios em sua estreia com Sócrates, de 2018, que deu ao cineasta o prêmio de diretor revelação na premiação americana Independent Spirit. Outra atração made in Brazil foi “Deserto Particular”, exibido na mostra paralela Venice Days e ovacionado pela plateia ao final. A direção é do baiano Aly Muritiba, de 42 anos, outro diretor que vem conquistando os gringos. O longa traz Antonio Saboia (de Bacurau) na pele de um policial curitibano que, apaixonado por Sara, uma mulher com quem se relaciona à distância por aplicativo, atravessa o país até a Bahia para encontrá-la quando ela desaparece. “É um filme no qual nenhum momento é desperdiçado”, sintetiza uma análise publicada pelo International Cinephile Society. Com a excelente recepção no festival italiano, uma importante vitrine para o Oscar, as duas produções largam na frente na busca por uma vaga para representar o Brasil no Oscar 2022, a mais cobiçada premiação do cinema mundial.

 

De Glamour também se faz um festival

Mas além dos premiados e dos destaques nacionais, o Festival de Veneza trouxe outros filmes que merecem atenção. Um deles é “Spencer” que tem como atração a extraordinária transformação de Kristen Stewart, da saga “Crepúsculo”, na Princesa Diana para mostrar os detalhes da sua decisão de terminar seu conturbado casamento com o príncipe Charles, herdeiro do trono britânico. A direção é do chileno Pablo Larraín. Outro título que merece destaque é “Duna”. Apesar de algumas críticas desfavoráveis, o blockbuster de ficção científica de Denis Villeneuve, que traz no elenco nomes como Timothée Chalamet e Zendaya, foi ovacionado durante sete minutos cronometrados. A euforia só acabou quando o diretor, que já pensa em uma continuação, avisou que era hora de ir embora. O novo longa da Warner Bros. é uma adaptação do livro de ficção científica de Frank Herbert, lançado em 1965. Vale lembrar que a obra já ganhou uma versão cinematográfica em 1984 pelas mãos do cultuado cineasta David Lynch que, inclusive, figura na lista dos clássicos da ficção científica. Outra produção que merece destaque “The Last Duel”, épico medieval de Ridley Scott, estrelado pelos amigos Matt Damon e Ben Affleck que, aliás, gerou frisson ao desembarcar de um taxi aquático para a apresentação do filme ao lado da cantora e atriz Jennifer Lopez, o glamuroso casal conhecido popularmente como “Bennifer”, restaurou o romance recentemente depois de quase 20 anos. E assim, Veneza reafirma a receita que faz dos festivais um evento para os mais diversos paladares, misturando bons filmes, polêmicas, glamour, paparazzis e grandes astros. Ao que parece a vida, finalmente, está voltando ao seu novo normal.

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