Crises, conflitos, problemas ambientais e ativismo são temas que integram a pauta do Festival de Cannes, conferindo um cunho político a um dos mais importantes eventos da indústria cinematográfica mundial. Ao cruzar o tapete vermelho estas questões ganham às telas e o centro das atenções, colocando em pauta discussões que, endossadas por artistas e celebridades, ganham eco e potência. Antes mesmo do início do Festival, o diretor do evento, Thierry Frémaux, prometeu uma grande festa, mas sem esquecer do que está acontecendo na Ucrânia. “É um país que está vivendo sob bombas e nós apoiamos, de forma absoluta e inegociável, o povo ucraniano”, declarou ao ser questionado sobre a decisão de banir comitivas oficiais russas e jornalistas alinhados com o presidente Vladimir Putin. Porém a retaliação não é válida para os filmes vindos do país. “É o governo que faz a guerra, então não é contraditório que nós mostremos filmes russos”, afirmou.

Não por acaso, a abertura da edição de 2022 contou com uma aparição surpresa do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski – que antes da política trabalhou como ator ,roteirista e diretor – que em discurso por vídeo pediu que cineastas não se calem diante de “ditadores” e fez referências ao ator e diretor Charles Chaplin, que satirizou Hitler durante a Segunda Guerra. Ele também pediu que o cinema não se cale diante da invasão russa da Ucrânia, que chamou de o conflito “mais terrível” desde a Segunda Guerra Mundial. Ovacionado pelos presentes, ele teve seu pedido prontamente atendido com a exibição de “Coupez!”, que abriu a seleção oficial, fora da competição.

Paródia

Assinado pelo diretor francês Michel Hazanavicius, que desta vez homenageia o cinema B, “Coupez!”, que arrancou risos na seleta plateia de Cannes, é uma paródia com direito a zumbis, banho de sangue, membros mutilados e claras referências ao diretor americano Quentin Tarantino (“Pulp Ficion” e “Kill Bill”). Estrelado por Berenice Bejo, atriz franco-argentina, e Romain Duris, que já acumula mais de 50 longas em seu currículo, o filme originalmente se chamava “Z” em homenagem ao gênero cinematográfico em que se classifica a obra, mas o título foi alterado por causa da guerra na Ucrânia, uma vez que a letra é usada como símbolo pelo exército russo no conflito armado e a organização do festival não desejava que nada pudesse indicar qualquer tipo de ambiguidade sobre a posição do evento contra a agressão da Rússia a soberania ucraniana.

Tchaikoviski

Mas as alfinetadas ao ditador russo Vladimir Putin não pararam por aí. A exibição oficial dos longas que vão competir pela Palma de Ouro teve início com “A Mulher de Tchaikoviski”, do cineasta russo dissidente Kiril Serebrennikov. A obra acompanha a história da aspirante a pianista, Antonina Miliukova, que teve um casamento de aparências com o compositor que era, inegavelmente, homossexual. E para narrar a história de um dos mais célebres artistas de um país que institucionalizou a homofobia, o diretor usa de muita sutileza, embora a questão central esteja sempre presente.

Aliás, um dos momentos mais emblemáticos do filme é justamente a cena de um balé. Enquanto dança, a protagonista é confrontada por corpos masculinos completamente despidos, numa coreografia homoerótica que simboliza sua descida ao inferno, já que ela se recusa a aceitar que o marido não tem interesse por ela e, tampouco, em consumar o casamento.

 

 

Bandeiras

Outra atração do festival que também deve incomodar Putin, é o documentário “Mariupolis 2”, que teve as filmagens interrompidas depois do diretor Mantas Kvedaravicius ser capturado e assassinado pelo exército russo. Sem narração e trilha sonora, o documentário – que mostra famílias na cidade ocupada de Mariupol, seis anos depois de elas terem sido registradas pelo mesmo cineasta – foi finalizado pela equipe de Kvedaravicius e gerou comoção ao ser exibido fora da mostra competitiva. E assim arte e política se misturam num movimento que vai além de simplesmente narrar histórias, mas ganha corpo e importância ao promover a reflexão.

 

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