O 5G – internet de altíssima velocidade que permite habilitar 1 milhão de dispositivos em uma área de um quilômetro quadrado, contra aproximadamente 60.000 no 4G – ganhou as manchetes dos principais veículos de comunicação brasileiros no início deste mês com a realização do leilão para a escolha das empresas que vão operar a tecnologia por aqui. As gigantes Claro, Tim e Vivo arremataram o seu quinhão, com ofertas que somaram cerca de R$ 47,2 bilhões. Desse total, mais de R$ 39,8 bilhões devem revertidos em investimentos para ampliar a infraestrutura de conectividade no Brasil, assegurando que a novidade chegue a municípios com mais de 30 000 habitantes, instalando antenas e rede de fibra óptica em 530 cidades até 2025, além da oferta de conexão ultrarrápida para 72 000 escolas públicas e para 48 000 quilômetros de estradas, o que vai incentivar o uso da telefonia móvel rápida pelo interior do país. Em termos práticos isso significa desenvolvimento para diversas áreas como agropecuária, saúde, infraestrutura e gestão de cidades inteligentes, além da educação e o audiovisual. Neste último caso, vale destacar que com o tráfego de dados de altíssima velocidade, até 100 vezes mais rápido que o 4G, é possível assistir vídeos de alta definição, de 4 e 8K, através de dispositivos móveis, como smartphones e tablets. Um filme poderá ser baixado em 21 segundos, contra mais de 35 minutos numa conexão 4G de 100 megabytes por segundo. Além disso, a experiência imersiva com realidade virtual e realidade aumentada poderá ser explorada tanto individualmente, como em grupos e até em eventos de grande porte.

Movidos pela imensa gama de possibilidades que se abre com a rede 5G, já em operação na China, executivos da indústria cinematográfica de vários países não perderam tempo e em 2019 – logo após a tecnologia desembarcar na gigante asiática, por meio das operadoras estatais China Unicom, China Mobile e China Telecom – se reuniram durante o Chinese American Film and TV’s Festival — evento anual realizado na Califórnia (EUA), dedicado a produções de ambos os países, para começar a discutir qual o impacto da tecnologia no setor, traçando um panorama do que deve acontecer num futuro próximo, trazendo para a realidade o que há pouquíssimo tempo parecia obra de ficção. Em uma reportagem do site Variety realizada na época do evento alguns desses profissionais revelaram suas opiniões em termos de distribuição, alcance e até mesmo inspiração para novas obras e, segundo eles, o cenário é bastante promissor e repleto de novidades. Afinal, a internet de alta velocidade deve impulsionar significativamente a inserção de novos equipamentos de produção e consumo de conteúdo audiovisual. Por aqui, o cronograma inicial prevê que o 5G deve estar disponível nas capitais já em julho de 2022. Para o restante do país, a novidade deve chegar em 31 de julho de 2025 para municípios com mais de 500 mil habitantes, em 31 de julho de 2026 para localidades com mais de 200 mil habitantes e em 2027 e 2028 em cidades com mais de 100 e 30 mil habitantes, respectivamente.

Impactos na Indústria Cinematográfica

Jack Gao, CEO da plataforma de streaming Smart Cinema, ressalta que a distribuição dos filmes será bastante impactada pelo 5G. “Bem-vinda, tecnologia. Quer você goste ou não, ela está chegando para ficar”, afirmou o executivo. Outro entusiasta da novidade é o americano Andre Morgan, presidente da produtora Ruddy Morgan Productions. Para ele, quanto mais as tecnologias evoluem, mais amplo o público. “Para o setor, acho positivo, porque você tem a oportunidade de atingir um público muito maior do que se poderia imaginar 30, 40 anos atrás.”, afirmou. Segundo uma pesquisa realizada pela Equinix em 2020, 47% dos tomadores de decisão em TI pontuaram que o 5G possibilitará a utilização de novas tecnologias nos negócios. A informação encontra eco em Stu Levy, fundador da distribuidora japonesa de animes TokyoPop. Ele prevê que o 5G deve impelir a criação de novos apps, bem como moldar a estética e sensibilidade de novas produções”. A frase do executivo serve como um contraponto ao posicionamento de alguns cineastas que são resistentes aos novos meios de produção e exibição, como o próprio vídeo sob demanda, dominado pelas plataformas de streaming, que acabaram, inclusive, impulsionadas com o isolamento social decorrente da pandemia do novo Corona Vírus em detrimento das salas de cinema.

Martin Scorsese, aclamado cineasta e vencedor do Oscar, em um artigo sobre o diretor italiano Federico Fellini para a Harper’s Magazine, afirmou: “a arte do cinema está sendo sistematicamente desvalorizada, marginalizada, rebaixada e reduzida ao seu mínimo denominador comum pelo sistema de streaming que vê o filme como conteúdo”. Para ele, o novo sistema trata todas as imagens em movimento como iguais. “Um filme de David Lean, um vídeo de gato, um comercial do Super Bowl, uma sequência de super-herói, um episódio da série, tanto faz”, reclama. No artigo, o cineasta disse também que ao confiar em algoritmos para apresentar novos projetos aos espectadores, estes são tratados apenas como “consumidores” e a arte é desvalorizada. Vale ressaltar que apesar do tom crítico ele próprio já se rendeu ao streaming onde lançou produções como “O Irlandês” (Netflix), mas sem abrir mão do estilo que o consagrou em nome da audiência. As críticas do diretor se estendem ainda aos filmes da Marvel, blockbusters que, na sua visão, transformam as salas de cinema num parque de diversões.

Entretanto, apesar da relevância dos posicionamentos de um cineasta do porte de Scorsese, um ícone dentro da indústria cinematográfica mundial, que certamente encontra coro junto a seus pares, há uma grande ala da indústria, mais progressista, que está de olho nos dividendos que a o 5G pode trazer para o setor audiovisual. Para este grupo, o executivo da Ruddy Morgan Productions, manda um recado: se eu fosse um jovem cineasta hoje, o primeiro lugar que eu estaria olhando seria o TikTok. É sempre o lugar onde os jovens e seus movimentos são relevantes para a cultura pop”, afirma já apontando uma direção provável para a expansão do segmento.

Discussões à parte, o fato é que os conteúdos, sejam filmes, séries ou qualquer outro produto audiovisual, como os breves vídeos do TiKTok e de outros apps correlatos, terão muito mais facilidade para alcançar os espectadores, independentemente de onde estejam, através da distribuição em dispositivos móveis, graças ao 5G. A nova tecnologia também vai potencializar os aplicativos de streaming, turbinando o alcance das produções. Hoje, já existe um movimento nesse sentido. A própria Netflix consegue estrear séries estrangeiras simultaneamente para mais de 100 países. O que está ameaçado aqui, na verdade, é a hegemonia americana na indústria audiovisual, uma vez que a tecnologia garantirá um alcance muito maior para produções que até então não conseguiam ampliar significativamente a sua capacidade de distribuição. Basta ver o fenômeno recente de “Round 6” e o imenso sucesso do aplicativo chinês TiKTok que já promoveu, inclusive, mudanças no antes inabalável tabuleiro de Mark Zuckerberg, que foi compelido a incluir o reels no Instagram e Facebook. Vale mencionar que o TikTok alcançou, em setembro, a marca de 1 bilhão de usuários ativos por mês ao redor do mundo, numa soma que exclui os números do Douyin, versão local que é completamente separada do app ocidental, segundo a empresa. Mas esse é só o começo de uma revolução que se anuncia. Para a audiência resta apenas a ingrata missão de separar o joio do trigo para acessar conteúdos que sejam realmente relevantes, que mereçam chegar às suas telas.

 

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