ATORES E ROTEIRISTAS DE HOLLYWOOD EM GREVE EXIGEM A REGULAMENTAÇÃO DO USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO SEGMENTO

Um admirável mundo novo se abre para o setor audiovisual com a popularização do streaming
e a evolução das ferramentas de inteligência artificial. Atentos às mudanças, atores e
roteiristas se juntaram para pressionar estúdios e players a rever contratos de trabalho. Regras
para o uso de IA e uma revisão na forma de remuneração pelos direitos autorais, atrelada aos
ganhos das plataformas com a exibição das obras, encabeçam a lista de reivindicações e
levaram a um impasse que motivou a greve simultânea das duas categorias. Os roteiristas
largaram na frente e estão paralisados desde maio. Já os atores, pararam em meados de julho.
A adesão de nomes famosos ajudou o movimento a ganhar visibilidade mundial, mas ao que
parece o impasse segue longe de um consenso.

Ganhos Residuais

Em entrevista para a revista Variety, uma das mais importantes publicações sobre o setor de
entretenimento, Fran Drescher, Presidente do SAG – Screen Actors Guild, o Sindicato dos
Atores, explicou que a categoria também está pleiteando limitação de testes de elenco pré-
gravados, aumento de pensões e planos de saúde, atualização de períodos de contrato, entre
outros tópicos.

Mas um dos principais focos de discussão gira em torno dos chamados ganhos residuais. Pelo
modelo atual de contrato, os atores recebem um valor fixo dos estúdios pela simples inclusão
da obra, seja ela um filme ou série, numa plataforma de streaming, como a Netflix, por
exemplo. Ou seja, um roteirista ou ator de uma produção de sucesso, que ajuda a trazer
assinantes para o player, não recebe nada dos lucros com assinaturas, publicidade ou produtos
derivados. Por isso, a intenção é que a remuneração agora seja pautada no desempenho de
cada produção. O SAG reivindica 2% da receita gerada pelos programas de streaming. A
AMPTP – Alliance of Motion Picture and Television Producers, entidade que representa os
produtores de TV e cinema, no entanto, argumenta que é impossível medir o impacto de cada
produção no streaming e, portanto, não aceita negociar o pedido.

Inteligência Artificial

Outro ponto que está gerando muita discussão é o uso da Inteligência Artificial para replicar a
imagem dos atores. Atualmente a regulamentação é omissa neste ponto e atores temem que
os estúdios possam se valer do escaneamento de suas imagens para uso futuro, sem a
necessidade de permissão ou pagamento. Este ponto é especialmente preocupante para
figurantes e extras em produções, que após cederem suas imagens por um dia de trabalho,
podem vê-las replicadas com o uso de IA.

De acordo com o porta-voz do SAG, os produtores atualmente podem usar a imagem de atores
já escaneadas apenas para treinar a IA a criar versões alteradas ou sintéticas para serem
usadas no fundo de produções. A reivindicação é que seja necessário o consentimento para
todo e qualquer uso individual de imagem de atores. No caso dos roteiristas, o pleito é que
haja regulamentação no uso de ferramentas de IA em trabalhos de revisão e tradução, por
exemplo.

Nomes Consagrados

Embora usufruam de um maior poder de barganha e autonomia em seus contratos, além do
poder financeiro, grandes nomes da indústria também aderiram a greve. Entre eles estão
Susan Sarandon, Daniel Radcliffe, Kevin Bacon e Jason Sudeikis. Membros do sindicato
britânico como Brian Cox e Andy Serkis também já declararam apoio aos colegas americanos,

Impactos

Enquanto as partes não chegam a um consenso, Hollywood segue paralisada, afetando os
calendários de estreia e o início de novas produções. Especula-se que até mesmo a entrega do
Emmy, o Oscar da TV americana, programada para 18 de setembro, possa ser afetada. A
última greve dos roteiristas aconteceu em 2007 e durou 100 dias, o suficiente para promover
uma queda significativa na receita dos estúdios, cancelamentos e demissões. Já a última
paralisação simultânea das duas categorias aconteceu em 1960 e uma das principais
reivindicações, na época, era pela revisão de ganhos residuais por filmes exibidos na televisão.
A celeuma na maior fábrica de sonhos da humanidade chega para descortinar a necessidade
premente de se discutir e implantar regras para o uso e exploração de novas tecnologias, como
a IA, que – cedo ou tarde – vai impactar todos os segmentos da nossa sociedade.
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