ELEIÇÕES: DEEPFAKES E O JORNALISMO AUDIOVISUAL

O ciclo eleitoral global de 2024–2025 — que levou às urnas mais de 2 bilhões de pessoas em cerca de 70 países, segundo levantamento do International IDEA — teve um ingrediente até então inédito, mas que impactou a todos: a inteligência artificial generativa. De áudios falsos atribuídos ao presidente americano Joe Biden passando pela enxurrada de peças manipuladas nas eleições municipais brasileiras de outubro de 2024, emissoras públicas e comerciais foram obrigadas a reescrever, em tempo real, seus protocolos de verificação audiovisual. Agora, às portas de uma nova eleição presidencial e de renovação da Câmera Federal e parte do Senado, o Brasil deve se deparar com um novo teste de fogo contra as deepfakes. 

Ritmo acelerado 

“O que mudou definitivamente em 2024 foi a velocidade. Um deepfake de qualidade razoável passou a ser produzido em minutos, e não mais em dias”, afirmou Claire Wardle, cofundadora do Information Futures Lab da Brown University e uma das principais referências mundiais em desinformação, em entrevista ao Reuters Institute Digital News Report 2024. O relatório, publicado em junho daquele ano pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, apontou que 59% dos entrevistados em 47 países declararam estar preocupados em distinguir conteúdo verdadeiro de falso na internet — alta de 5 pontos percentuais em relação a 2023.

Resposta

A resposta institucional começou pela BBC. Em fevereiro de 2024, a emissora pública britânica lançou o BBC Verify, unidade com cerca de 60 jornalistas dedicados à verificação de imagens, vídeos e dados de fontes abertas (OSINT). Segundo Deborah Turness, CEO da BBC News, em comunicado oficial, o time passou a aplicar um protocolo de quatro etapas: análise de metadados (EXIF), checagem de geolocalização por referências visuais, exame forense de inconsistências em iluminação, piscadas e sincronia labial, e cruzamento de informações junto a fontes humanas. A iniciativa teve êxito e durante as eleições americanas de novembro de 2024, o processo de checagem chegou a derrubar ao vivo um vídeo manipulado da vice-presidente Kamala Harris que circulou no X.

A união faz a força

Nos Estados Unidos, a CBS News institucionalizou em maio de 2024 a CBS News Confirmed, equipe que combina verificação humana com ferramentas como o Truepic Lens e o classificador de áudio sintético desenvolvido pela startup Reality Defender, em parceira anunciada em comunicado oficial da rede. A NBC News, por sua vez, integrou a sua redação à C2PA (Coalition for Content Provenance and Authenticity), consórcio fundado por Adobe, Microsoft, BBC, Sony e Intel que padroniza credenciais criptográficas embutidas em arquivos de imagem e vídeo — as chamadas “Content Credentials”. A própria coalizão, em documento atualizado em setembro de 2024, recomenda que emissoras só veiculem material de terceiros quando o selo de proveniência puder ser auditado.

 

Cenário verde e amarelo

No Brasil, a resposta veio através do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que em fevereiro de 2024 aprovou a Resolução nº 23.732, exigindo rotulagem obrigatória de qualquer conteúdo sintético em propaganda eleitoral e proibindo deepfakes. A medida pressionou as emissoras a adotarem protocolos próprios. A TV Globo, segundo apuração da revista piauí, criou um fluxo interno batizado informalmente de “tripé”: análise técnica pelo núcleo de checagem do Fato ou Fake, validação por repórter setorista e confirmação com a fonte primária antes da exibição. O Grupo Globo também foi o primeiro na América Latina a aderiu ao programa de Content Credentials da C2PA, em agosto de 2024.

Seguindo o mesmo compasso, a Record e o SBT passaram, inclusive, a exigir de seus afiliados o envio de material bruto com metadados preservados, abandonando a prática comum de aceitar vídeos comprimidos via WhatsApp. Já a TV Cultura firmou parceria com a agência Lupa e com o InternetLab para treinamento de equipes em ferramentas como InVID-WeVerify, plug-in de navegador desenvolvido com financiamento da União Europeia e usado por mais de 100 mil jornalistas no mundo, segundo dados do próprio consórcio.

Checagem de fontes

Mas apesar dos avanços, especialistas alertam para os limites da tecnologia. Hany Farid, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley e um dos pioneiros na ciência forense digital, declarou ao The New York Times em janeiro de 2025 que nenhum detector automático é 100% eficaz em condições reais, o que significa que o jornalismo continua dependente, em última instância, do velho ofício de checar fontes”. A avaliação é endossada pelo relatório “Generative AI and Elections”, publicado em março de 2025 pelo Knight First Amendment Institute, da Universidade Columbia, que conclui: protocolos robustos, transparência editorial e cooperação entre emissoras seguem sendo a defesa mais eficaz — mais do que qualquer ferramenta isolada de detecção. 

A era da Ilusão

Habitando um mundo onde nem tudo é mais o que parece, a regra de ouro, seja para grandes conglomerados de comunicação ou até mesmo para o espectador comum é: checar sempre os dados junto a outras fontes confiáveis antes de repassar e, na dúvida, dispensar o material, evitando assim incorrer no risco de propagar deepfakes.   

Rush Vídeo: ideias em movimento