QUANDO O CREATOR VIRA BROADCASTER: O NOVO MAPA DO AUDIOVISUAL
A separação entre broadcasters e creators parecia uma regra inquestionável do mercado audiovisual. Enquanto emissoras e estúdios controlavam os grandes investimentos e a distribuição em massa, criadores digitais atuavam à margem desse sistema, com equipes reduzidas e conexão direta com suas comunidades. Essa lógica, entretanto, vem sendo rapidamente redefinida. Um dos casos mais emblemáticos que explica esta nova dinâmica é o de Jimmy Donaldson, o MrBeast, o maior canal individual do YouTube, com mais de 400 milhões de inscritos. Em março de 2024, a Amazon MGM Studios lançou “Beast Games”, um reality com 1.000 participantes disputando US$ 5 milhões, o maior prêmio já oferecido na TV, segundo a própria empresa. A produção se tornou o reality não roteirizado mais assistido da história do Prime Video, alcançando mais de 50 milhões de espectadores em 25 dias, de acordo com a revista Variety. O dado relevante aqui não é apenas o tamanho da audiência, mas a inversão do fluxo: historicamente, talentos da TV migravam para o YouTube quando perdiam espaço. Agora, é um estúdio centenário – no caso a MGM, fundada em 1924 – que compra um formato de um criador de 26 anos para tentar capturar público que já não assiste TV linear.
Cazé TV: direito esportivo descentralizado
No Brasil, o caso mais emblemático é o de Casimiro Miguel. Sua produtora, a CazéTV, transmitiu pelo YouTube a Copa do Mundo de 2022 em parceria com a FIFA+ e a LiveMode, alcançando picos superiores a 6 milhões de espectadores simultâneos, segundo dados divulgados pelo UOL na época. E assim, em poucos anos, a CazéTV deixou de ser um projeto de creator para se tornar uma potência na compra de direitos esportivos. Após transmitir a Copa do Mundo de 2022 e a Copa do Mundo Feminina de 2023, ampliou seu portfólio com Série B, Copa do Nordeste e Copa América. Em 2024, a escalada seguiu e foi um passo além: transmitiu integralmente os Jogos Olímpicos de Paris, com mais de 40 modalidades simultâneas — algo que nenhuma emissora aberta brasileira, sozinha, replicou. A audiência da abertura dos Jogos na CazéTV foi de 4,9 milhões de espectadores médios, superando, em parcela do público jovem, a transmissão da Globo. Em 2025, vieram a Libertadores, Sul-Americana, NBA, Brasileirão Série B e parte da Eurocopa, reunindo um catálogo comparável ao de emissoras tradicionais.
Mas o maior salto veio com a Copa do Mundo de 2026: a FIFA concedeu à CazéTV os direitos digitais exclusivos no YouTube para o ciclo 2026-2030, colocando-a no mesmo patamar de grandes broadcasters internacionais. A partir daí, a CazéTV passou a negociar diretamente com entidades como FIFA, Conmebol, UEFA e NBA, assumindo contratos de direitos esportivos e responsabilidades antes restritas a grandes emissoras e conglomerados globais. Isso significa atender a rigorosos padrões de transmissão, patrocínio e distribuição, consolidando a operação criada por Casimiro Miguel e pela LiveMode como um comprador de direitos de primeira linha no mercado internacional. E para a indústria publicitária, o impacto deste novo tabuleiro é estrutural. Anunciantes que historicamente compravam blocos de 30 segundos na TV aberta, agora passam a negociar com uma operação de cerca de 80 funcionários. A Cazé já não é mais “um canal do YouTube”; é uma broadcaster esportiva nativa da internet, o que está longe de ser uma diferenciação puramente semântica.
Felca e o poder de pauta
Mas as repercussões deste novo cenário não param por aí e o caso Felca está aí para provar. Em agosto de 2025, o vídeo “Adultização”, do criador Felipe Bressanim, denunciando a exposição sexualizada de menores nas redes sociais, ultrapassou 50 milhões de visualizações em uma semana e provocou reação imediata do Congresso, capturando a agenda pública — outra função historicamente reservada ao broadcaster. Em 20 dias, a Câmara aprovou o PL 2628/2022, que regulamenta a proteção de crianças em ambientes digitais — projeto que tramitava havia três anos sem prioridade. Nenhuma reportagem sobre o mesmo tema, ainda que exibida por canais de grande visibilidade havia produzido efeito legislativo semelhante. Um creator, operando sozinho do seu estúdio, exerceu uma função clássica do jornalismo broadcaster: agendar a pauta nacional.
Novo Cenário
E dentro deste nvo contexto, a fronteira que desapareceu não é tecnológica — câmeras, ilhas de edição e largura de banda já estão commoditizadas há uma década. O que se dissolveu são barreiras de mercado. YouTube, Twitch e apps verticais hoje entregam audiência em escala broadcaster sem exigir concessão pública ou contrato de TV paga. Detentores de direitos esportivos, como a FIFA, COI, NBA, CBF descobriram que vender para creators amplia público jovem sem canibalizar a TV linear — então passaram a fragmentar pacotes. Ou seja: o jogo mudou.
Legitimidade institucional.
Anunciantes, parlamentares e o próprio jornalismo tradicional já tratam grandes creators como interlocutores equivalentes a uma emissora. O movimento tem custos. A profissionalização traz para o universo creator dilemas antes restritos às emissoras: segurança em set, regulação de conteúdo infantil, transparência de patrocínios, sindicalização. O movimento Dublagem Viva, no Brasil, e as greves do SAG-AFTRA, nos EUA, sinalizam que o ecossistema digital começa a ser cobrado pelos mesmos parâmetros do audiovisual tradicional. Para emissoras tradicionais, a pergunta deixou de ser “como competir com creators?” e passou a ser “como contratá-los, distribuí-los ou comprá-los antes que o concorrente o faça?”. A resposta mais provável é que já nos próximos cinco anos, o organograma do mercado audiovisual global vai parecer menos com uma grade de programação e mais com um marketplace de IPs onde estúdios, plataformas e creators são apenas papéis intercambiáveis na mesma cadeia.
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