O streaming é hoje mais uma opção para o consumo de conteúdo audiovisual. O número de empresas que lançaram suas próprias plataformas de filmes e séries aumentou bastante nos últimos anos. Uma pesquisa realizada em dezembro de 2020 pela Kantar, empresa especializada em pesquisas de opinião, revelou que 6 em cada 10 brasileiros com acesso à internet têm algum tipo de assinatura de streaming. O isolamento social de 2020 e 2021 acelerou o número de pagantes nas plataformas, o que incentivou a chegada de novos players ao Brasil, como Disney+, HBA Max e Star Plus. Já são tantas opções que assinar todos estes serviços, o que garantiria ao usuário um catálogo mais diversificado, pode representar um custo pesado no final do mês. A tendência é ascendente e cada vez mais as produções estão sendo direcionadas a uma plataforma exclusiva, criando uma reserva de mercado. Além disso, com a chegada da pandemia e o fechamento dos cinemas um novo ingrediente foi adicionado a esta até então bem-sucedida receita e está desandando as relações entre as plataformas e artistas. A razão é que a estratégia de lançamento de vários produtos foi alterada e produções que deveriam desembarcar primeiro nos cinemas, com toda a pompa e circunstância de um grande lançamento, tiveram a sua rota alterada e chegaram simultaneamente ou, pior ainda, foram disponibilizadas apenas no streaming, até como um recurso para atrair a atenção do público. O resultado desagradou atores e cineastas e um braço de ferro se estabeleceu entre as partes, numa disputa que promete rounds milionários.

 

O imbróglio que já vinha se arrastando desde dezembro do ano passado, ganhou recentemente um novo capítulo com a atriz Scarlett Johansson processando a Disney por quebra de contrato, pelo lançamento de “Viúva Negra” no Disney+. No processo, a atriz argumenta que seu contrato com a Marvel Entertainment garantia um lançamento exclusivo no cinema e seu salário se baseava em grande parte no desempenho de bilheteria do filme. Com a decisão de disponibilizar o longa-metragem simultaneamente no streaming a estimativa é que a atriz deixe de ganhar aproximadamente US$ 50 milhões. Logo após o ingresso da ação nos tribunais, a Associação Nacional de Donos de Cinemas (NATO) dos Estados Unidos também divulgou uma nota alegando que a aventura da Marvel teve uma performance abaixo do esperado por causa do streaming, endossando os argumentos de Johansson. Foi o que bastou para que outros colegas da estrela decidissem fazer o mesmo e ao que parece a disputa deve se arrastar ganhando novos episódios.

 

Lançamentos Simultâneos para Driblar a Pandemia

A tática de lançar os filmes, ao mesmo tempo, nas plataformas e nos cinemas e com isso aumentar a visibilidade do streaming, numa manobra que inegavelmente também ajuda os estúdios a recuperarem o fôlego depois dos prejuízos causados pela pandemia, com as salas de cinema fechadas e os lançamentos postergados, deu seus primeiros passos no final de 2020, quando a Warner anunciou que lançaria todos os filmes de 2021 simultaneamente nos cinemas e na HBO Max. Na época, a notícia estremeceu as estruturas de Hollywood e os protestos indignados não demoraram a surgir. Nomes como Denzel Washington, Denis Villeneuve e Christopher Nolan, se manifestaram contra a iniciativa. Denzel, inclusive, ficou irritado porque seu novo filme, “Pequenos Vestígios”, não chegou sequer a ganhar uma estratégia de divulgação. No caso de Villeneuve e Nolan a preocupação é preservar a experiência cinematográfica, já que assistir um filme num cinema ou na sala de estar deitado no sofá geram impressões totalmente distintas e muitos filmes são desenvolvidos para proporcionar uma vivência única frente a tela grande.

 

Visionária

Mais esperta que a Viúva Negra, a atriz Gal Gadot, protagonista de “Mulher-Maravilha 1984”, que também teve seu lançamento pautado no modelo simultâneo, tratou logo de partir para uma renegociação do seu contrato e tanto ela como a diretora Patty Jenkins receberam uma compensação pela mudança. Mas nem sempre o diálogo basta para resolver disputas milionárias. E independentemente de Johansson ganhar ou não o processo que está movendo, o caso ganhou bastante visibilidade e deve abrir precedentes, o que não é nada bom para os estúdios, podendo gerar prejuízos enormes.

 

A origem da Confusão

O problema todo aconteceu porque muitos filmes foram negociados antes da pandemia, num momento que ninguém, nem mesmos os roteiristas mais criativos de Hollywood, foi capaz de prever o que estava por vir. O mundo parou, os cinemas fecharam e o streaming ganhou força. Contudo, os contratos previam que as produções fossem lançadas no cinema, com boa parte dos salários de atores e diretores baseada em percentuais de arrecadação da bilheteria o que, até então, era um excelente negócio, sobretudo para produções do calibre de “A Viúva Negra”, derivada da franquia “Vingadores”, da Marvel, que em onze anos produziu 23 filmes e arrecadou US$ 22 bilhões, sendo a maior franquia cinematográfica da história. Porém, com o lançamento multiplataforma motivado pelo fechamento dos cinemas, os estúdios ganharam uma nova fonte de lucro não extensiva aos atores porque seus contratos simplesmente não previam esta possibilidade.

 

Correndo por Fora

Mas enquanto as grandes estrelas do cinema e os estúdios se digladiam nos tribunais, a Netflix vai se estabelecendo como uma produtora de conteúdo, investindo em produções próprias. Scott Stuber, diretor de filmes originais da plataforma, explica que o plano é fazer com que grandes estrelas, aquelas capazes impulsionar as bilheterias, enxerguem n companhia como sinônimo de liberdade criativa e equidade. Em entrevista concedida à revista Variety“, Stuber declarou estar determinado a atrair Christopher Nolan para a Netflix, especialmente depois do cineasta ter sido bastante contundente em suas críticas à Warner. “Farei tudo o que eu puder para lançar o próximo filme de Nolan. Neste mercado, não podemos ter ego. Levo um soco, caio e me levanto novamente”, explicou o executivo.

 

A verdade é que estamos diante de um duelo de titãs que ainda deve gerar novos desdobramentos e alterar as bases de negociações de novos contratos. Enquanto isso, na outra ponta, cabe ao público a ingrata decisão de escolher não apenas onde assistir os lançamentos, mas em qual plataforma investir suas fichas, já que aderir a múltiplas assinaturas é uma alternativa que tende a pesar no bolso.

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