AUDIOVISUAL EM TRANSFORMAÇÃO: QUANDO A IDEIA VALE MAIS QUE A EXECUÇÃO
Durante décadas, uma das principais vantagens competitivas do audiovisual esteve na capacidade de produzir. Fazer um filme, uma série, um comercial ou uma campanha exigia equipamentos, profissionais especializados, tempo e investimentos consideráveis. A inteligência artificial generativa começa a alterar essa equação ao reduzir barreiras de criação e acelerar diferentes etapas do processo. A tecnologia permite produzir mais, em menos tempo e, em determinados casos, com custos menores. O problema, no entanto, é que a audiência continua tendo apenas 24 horas por dia para consumir esta profusão cada vez maior de conteúdo e é justamente aí que se encontra uma das grandes contradições do audiovisual contemporâneo: quanto mais fácil fica produzir conteúdo, mais difícil se torna conquistar a atenção de quem vai consumi-lo.
A transformação já está sendo percebida no mercado. Estudo da Deloitte sobre as tendências de mídia e entretenimento para 2026 aponta que o diferencial competitivo migra da escala e da distribuição para o engajamento qualificado, a inteligência de audiência e a velocidade de inovação. A IA generativa, segundo a análise, reduz as barreiras de criação, mas também aumenta a competição por tempo e atenção. Isso significa que a pergunta estratégica para uma produtora começa a mudar. Em vez de simplesmente “quanto custa produzir?”, ganha espaço uma questão mais complexa: “por que alguém deveria assistir este conteúdo?”
Mais conteúdo, menos atenção
O crescimento da oferta não é exatamente uma novidade. O streaming já havia produzido uma expansão sem precedentes do catálogo audiovisual. A diferença agora é que a inteligência artificial pode acelerar ainda mais esse processo, permitindo que pequenas equipes e até criadores independentes desenvolvam imagens, vídeos, personagens, cenários e diferentes versões de uma mesma peça com uma velocidade que antes seria impraticável. E o risco, neste caso, é transformar abundância em saturação.
A discussão sobre a chamada “slopificação” do entretenimento, que ganhou força recentemente, descreve justamente esse cenário: uma produção massiva de conteúdos baratos, genéricos e repetitivos, capazes de ocupar os feeds e dificultar ainda mais a descoberta de trabalhos relevantes. Para as plataformas, portanto, o problema deixa de ser apenas oferecer conteúdo. É preciso ajudar o público a encontrar o conteúdo certo.
A própria Deloitte identifica a capacidade de descoberta como um possível diferencial competitivo num ambiente no qual a oferta de conteúdo gerado por IA tende a crescer. Quanto maior o volume disponível, maior será o valor de sistemas capazes de recomendar, organizar e conectar obras às pessoas certas.
O fim da era do “mais barato”
Para as produtoras, a mudança é especialmente significativa. A promessa inicial da IA muitas vezes aparece associada à redução de custos. Na prática, porém, a tecnologia não elimina necessariamente trabalho: ela desloca etapas, cria novas funções e exige supervisão, experimentação e controle de qualidade.
Experiências recentes do mercado publicitário brasileiro mostram justamente essa ambiguidade. A IA pode reduzir tempo e custos em determinadas etapas, mas também demanda profissionais capazes de operar as ferramentas, selecionar resultados, corrigir inconsistências e garantir que a entrega final corresponda ao objetivo criativo. E a consequência é uma possível mudança naquilo que o cliente compra de uma produtora.Se a ferramenta tecnológica se torna cada vez mais acessível, o diferencial deixa de estar apenas na capacidade de executar e passa a estar na capacidade de decidir. Qual ideia merece ser produzida? Qual linguagem funciona para determinado público? Que versão deve ser criada para cada plataforma? Como preservar a identidade de uma marca? Quando utilizar IA e quando recorrer à produção tradicional? E, principalmente, como transformar uma informação ou conceito em uma história capaz de despertar interesse?
Criatividade como ativo
Nesse cenário, criatividade deixa de ser apenas uma característica desejável para se tornar um ativo econômico ainda mais importante. A lógica pode parecer paradoxal: quanto mais a máquina consegue produzir, mais valor pode adquirir aquilo que ela não determina sozinha — repertório, visão, contexto, experiência, sensibilidade e capacidade de fazer escolhas. A diferenciação, em um mercado mais saturado, dependerá cada vez mais de histórias fortes, propriedade intelectual, confiança de marca e criatividade humana.
É uma mudança importante também para as produtoras independentes. Em vez de competir exclusivamente por estrutura, equipamentos ou preço, elas podem ampliar seu espaço justamente naquilo que não é facilmente comoditizado: concepção, desenvolvimento de formatos, conhecimento de audiência, construção de universos narrativos e capacidade de transformar uma demanda de comunicação em uma experiência audiovisual relevante. Isso não significa que a produção deixará de importar. Ao contrário. A tecnologia pode permitir que uma boa ideia seja testada, adaptada e distribuída de maneiras antes inviáveis. O que muda é a relação entre ideia e execução.
De produtor de conteúdo a gestor de atenção
O movimento também acompanha uma transformação mais ampla do mercado. Televisão, streaming, redes sociais, games, podcasts e formatos curtos estão cada vez mais próximos, enquanto o público transita entre eles sem necessariamente perceber fronteiras. O Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual Brasileiro 2026–2035, lançado pelo Ministério da Cultura em agosto, já trata a cadeia de maneira integrada, contemplando formação, produção, distribuição, exibição e circulação das obras brasileiras.
Nesse novo ecossistema, produzir é apenas uma parte da equação. É preciso saber onde o conteúdo encontra seu público, como ele é descoberto e o que faz esse público permanecer. Talvez essa seja uma das principais transformações provocadas pela inteligência artificial no audiovisual. A tecnologia não necessariamente torna a criatividade menos importante. Pode fazer exatamente o contrário. Quando qualquer pessoa puder produzir quase qualquer coisa, em praticamente qualquer escala, o recurso verdadeiramente escasso não será mais o conteúdo. Será a atenção. E, para conquistá-la, ainda será preciso ter algo que nenhuma ferramenta consegue garantir sozinha: uma boa história, uma ideia relevante e uma razão convincente para alguém apertar o play.
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