Tecnologia e fragmentação são alguns dos novos desagios para o audiovisual

O mercado audiovisual global vive um dos ciclos de transformação mais profundos desde a consolidação do streaming. Depois de quase uma década marcada por expansão agressiva, aumento de produções originais e uma corrida por assinantes, o setor atravessa agora uma fase mais complexa, em que tecnologia, comportamento da audiência e pressões econômicas se entrelaçam para redesenhar prioridades e novos modelos de negócio. A disputa atual não é apenas por catálogo: é por relevância, permanência e capacidade de adaptação dentro de um ecossistema saturado.

 

Nos últimos anos, as plataformas perceberam que o crescimento constante é um objetivo inviável. Em mercados maduros, como Estados Unidos e Europa, a base de assinantes estabilizou; em outros, como o Brasil, a oscilação entre entrada e saída de usuários tornou-se mais intensa. Com isso, o debate sobre sustentabilidade financeira ganhou força. O setor migrou da ideia de “escala a qualquer custo” para uma lógica mais realista, que combina aumento gradual de receitas, contenção de gastos e diversificação. Publicidade, planos híbridos e até ofertas gratuitas voltaram ao centro das estratégias — um movimento que reaproxima o streaming de modelos tradicionais, como a TV aberta, mas com ferramentas mais sofisticadas. Um estudo da Deloitte Touche Tohmatsu (“2025 Digital Media Trends”), porém, releva que a publicidade global para TV e vídeo em streaming deverá crescer apenas 2,4% anuais nos próximos períodos — sugerindo que a simples veiculação de anúncios não será mais suficiente para alavancar as receitas. 

 

Impacto Tecnológico

Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica passa a desempenhar um papel decisivo. A inteligência artificial generativa, por exemplo, começa a ganhar cada vez mais espaço nas etapas de pré-produção, roteirização, organização de workflow, localização e marketing. Ferramentas capazes de prever reações da audiência, testar cenas com antecedência ou automatizar traduções agora estão no centro do palco e embora não substituam o trabalho criativo, pressionam a indústria a repensar funções, processos e relações trabalhistas — tema que já mobiliza sindicatos e deve pautar negociações futuras.

 

Outro vetor importante é a produção virtual, que combina ambientes 3D, LED walls e motion capture para reduzir custos e dar mais flexibilidade a equipes. Esta tecnologia, que ganhou destaque em superproduções internacionais, agora se espalha para publicidade, novelas, videoclipes e conteúdos independentes. No Brasil, grandes estúdios e produtoras começam a investir nessas estruturas – que permitem planejamento visual mais eficiente, aumento da produtividade em set e diminuição de retrabalhos caros – enxergando nelas uma oportunidade de competir globalmente sem depender dos orçamentos milionários de Hollywood. 

Comportamento da audiência

Mas nenhuma mudança é tão impactante quanto a transformação do próprio público. Na era da economia da atenção, a pulverização do foco, impulsionada pela coexistência entre streaming, redes sociais e transmissões ao vivo, plataformas de vídeo, como Youtube, tornou o comportamento do espectador mais imprevisível. A fidelidade aos players diminuiu e a noção de “audiência fixa” simplesmente desapareceu. Hoje, a audiência transita entre múltiplos formatos ao longo do dia, alternando conteúdos de alta produção com vídeos espontâneos, lives, podcasts e séries tradicionais. Esse cenário obriga os players a investirem em experiências multiplataforma e em narrativas que possam circular em diferentes ambientes.

 

No Brasil, essa dinâmica se acentua devido à forte presença de usuários jovens e altamente conectados, que pressionam por inovação constante. O país se mantém como uma das praças mais relevantes para serviços de streaming, não apenas pelo volume, mas pelo comportamento engajado da audiência. Esse potencial contrasta, porém, com desafios estruturais, como a necessidade de políticas de fomento mais estáveis e a discussão sobre uma eventual regulação do setor, tema que avança lentamente e divide opiniões entre produtoras, plataformas e governo.

Cenário Nacional

Sobre o mercado nacional, aliás, vale mencionar que de acordo com o ANCINE – Agência Nacional do Cinema, o setor audiovisual brasileiro movimentou R$ 32,7 bilhões em 2024, o que representa o maior valor desde 2017. Segundo a Abcine _ associação Brasileira de Cinematografia, no parque exibidor, o Brasil chegou a 3.510 salas de cinema em funcionamento em 2024, um recorde histórico. Além disso, o mercado formal registrou aproximadamente 79 mil empregos diretos, com remuneração média de cerca de R$ 5.912, quase o dobro da média nacional. Na programação da televisão paga, a presença de conteúdo brasileiro em “espaço qualificado” alcançou 19,8%, o maior patamar desde 2016.
Esses números revelam que, apesar dos desafios — como a já mencionada regulação e competição com gigantes globais —, o Brasil segue sendo uma das praças mais relevantes para o audiovisual e apresenta sinais de recuperação e crescimento.

A chave do sucesso

 

O resultado é um mercado em reinvenção permanente. Se antes o audiovisual podia ser lido em blocos — cinema, TV, streaming —, agora ele se organiza como um ecossistema interligado, em que dados, cultura e criatividade dialogam o tempo todo. A guerra, hoje, não é apenas por assinantes, mas por tempo, emoção e presença. Em meio à saturação e à incerteza, quem conseguir decifrar essa nova lógica terá nas mãos a chave do sucesso.

 

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