BRASIL FINALMENTE CONQUISTA O SONHADO OSCAR COM “AINDA ESTOU AQUI” 

Um Oscar para chamar de nosso!!!! Depois de 97 anos de premiação, o Brasil finalmente  conquista a sua primeira estatueta. “Ainda Estou Aqui”, produção dirigida por Walter Salles,  baseada no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva – faturou o prêmio de melhor Filme  Internacional. Além de fazer história, o feito traz um epílogo honroso para um dos capítulos  mais tenebrosos e vergonhosos da história recente de nosso país – a morte do ex-deputado  Marcelo Rubens Paiva nos porões da ditadura militar no início da década de 70. A trama gira  em torno da saga de sua esposa, Eunice Paiva, brilhantemente interpretada por Fernanda  Torres, vencedora do Globo de Ouro e indicada como Melhor Atriz, para criar sozinha os cinco  filhos do casal e conseguir o atestado de óbito do marido – o que só aconteceu em dia 23 de  fevereiro de 1996, exatamente 25 anos e 31 dias depois de sua morte.  

A vitória não foi exatamente uma surpresa e já vinha sendo alardeada por vários especialistas  e veículos de comunicação. Mesmo assim, a emoção foi enorme. Em pleno domingo de  Carnaval, os brasileiros acompanhavam atentamente a premiação e a explosão de alegria  corou mais um dia de folia. Sobre a vitória, logo após a premiação, em entrevista ao Jornal  Folha de S. Paulo, Salles afirmou: “É a cultura brasileira em geral que está sendo reconhecida.  É a maneira como filmamos no Brasil que está sendo reconhecida. A literatura do Brasil está  sendo reconhecida por meio do livro, que foi a grande inspiração para o roteiro. A música  brasileira também está sendo reconhecida”, afirmou.  

Zebra da Noite 

Também apontadas como favoritas ao prêmio de Melhor Atriz, Fernanda Torres e Demi  Moore, que concorria por uma performance corajosa em “A Substância”, que trata justamente  do etarismo contra as mulheres na indústria do entretenimento, foram preteridas pela novata  Mikey Madison por sua performance em “Anora”. Aliás, este longa rendeu ao cineasta Sean  Baker, um feito inédito: se tornou a primeira pessoa a faturar quatro estatuetas pelo mesmo  filme numa edição da premiação. O americano levou os prêmios de montagem, direção,  roteiro original e filme. Vale destacar que enquanto “Ainda Estou Aqui” mostra o impacto de  uma ditadura no futuro de uma família, desvelando os horrores de um regime autoritário; e a  “Substância”, que também concorria na categoria de melhor Filme e direção, faz uma crítica a  padrões de beleza intangíveis, machismo, envelhecimento, obsessão pela juventude e pressão  estética; “Anora” aposta na surrada fórmula da Cinderela moderna: prostituta descolada  conhece herdeiro russo que pode mudar a sua vida. Infelizmente, o sistema venceu, mais uma  vez.  

Repercussão nas redes 

Nas redes sociais, enquanto os brasileiros celebravam, em ritmo de Carnaval, a vitória na  categoria de Filme Internacional, uma onda de incredulidade e indignação se instaurou com a  vitória de Mikey. Perder para Demi, uma atriz veterana, protagonista de blockbusters, que já  renderam milhões a indústria de Hollywood, e que finalmente tem seu talento reconhecido num filme que faz uma crítica mordaz ao establishment, era uma possibilidade concreta, mas  que não chegava a incomodar tanto. Seria um reconhecimento justo. Mas perder para uma  atriz em inicio de carreira, que só reforça estigmas nocivos e ultrapassados, é outra bem  diferente. O ruído, portanto, foi imediato. 

Mas embora não tenha levado a estatueta e a reparação histórica não tenha acontecido,  deixando a ferida ainda mais exposta e dolorida – há 26 anos, Fernanda Montenegro, sua mãe,  concorreu ao prêmio por “Central do Brasil”, também com direção de Walter Salles, mas foi  desbancada pela insípida Gwyneth Paltrow, por sua atuação em “Shakespeare Apaixonado” – Fernanda conquistou o mundo com seu talento, carisma e simpatia. Foram dezenas de  entrevistas para programas americanos de grande audiência e veículos internacionais, sempre  esbanjando sagacidade e bom humor. Suas escolhas de moda, certeiras, rapidamente a  alçaram também como um ícone de sobriedade e elegância. Desfilando looks de grandes  maisons internacionais, ela estava belíssima a bordo de um modelo Chanel na noite de entrega  do Oscar e, em momento algum, permitiu que as escolhas de figurino destoassem da  mensagem do filme e da mulher que estava representando nas telas. Com isso, sua  popularidade acabou crescendo exponencialmente, inclusive entre seus pares e junto à  imprensa especializada internacional.  

Furacão Fernanda 

Durante a campanha do filme, o número de seguidores de Fernandinha no Instagram cresceu  535%. O interesse por seus trabalhos também foi catapultado. Encerrada uma década atrás, a  série “Tapas e beijos” (“Slaps and kisses” no exterior) teve aumento de 209% no streaming  Globoplay. Frases cunhadas por ela como “Eu me sinto o Pikachu” e “A vida presta” passaram  a ser usadas cotidianamente. Sem mencionar que sua imagem virou boneco gigante no  tradicional Carnaval de Olinda, em Pernambuco, e máscaras com seu rosto estampado foram  usadas por todo o Brasil durante os dias de folia. Num país onde personagens vazios são  alçados à posição de ícones nacionais, é reconfortante ver que uma mulher madura e  inteligente, com uma carreira sólida, também pode inspirar multidões. Viva Fernanda! Viva o  cinema nacional! 

Rush Video: ideias em movimento