FESTIVAL DE VENEZA 2025: A FORÇA DO CINEMA POLÍTICO

O Festival Internacional de Cinema de Veneza, realizado entre 27 de agosto e 6 de setembro de 2025, confirmou mais uma vez ser um dos palcos mais prestigiados e influentes do cinema mundial. Com uma seleção marcada pelo engajamento político, pela diversidade de olhares e pela ousadia formal, o evento, que está em sua 82ª edição, celebrou obras de diferentes continentes e trouxe à tona discussões que ultrapassaram os limites da sétima arte, definindo a edição como uma das mais marcantes da última década. Um dos momentos mais memoráveis foi a homenagem à atriz Kim Novak, que aos 92 anos recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da carreira. Emocionada, ela relembrou sua trajetória, destacando a importância da arte como refúgio em tempos de solidão. O Brasil esteve representado pela atriz e escritora Fernanda Torres, que integrou o júri principal do festival. Com humor e elegância, Torres destacou a honra de participar de um evento desta envergadura, reforçando a importância de que vozes do Brasil estejam presentes nas grandes discussões cinematográficas. Embora o país não tenha levado prêmios nesta edição, a presença de nossa musa reforçou a inserção brasileira no circuito internacional.

Leão de Ouro

O grande vencedor do Leão de Ouro foi o norte-americano Jim Jarmusch, com o filme “Father Mother Sister Brother”. A obra, estrelada por nomes como Cate Blanchett e Adam Driver, explora as dinâmicas familiares em diferentes contextos geográficos e culturais. Misturando drama, humor e poesia visual, o longa foi aclamado pela crítica como um dos trabalhos mais inventivos da trajetória do cineasta. Apesar de toda a comoção com a vitória, Jarmusch, fez questão de ressaltar as contradições do financiamento de seu filme, patrocinado pela plataforma Mubi, que possui investidores ligados ao setor bélico. Em seu discurso, definiu o modelo corporativo de “sujo”, abrindo espaço para um debate ético sobre a produção cinematográfica contemporânea.

Prêmio do Júri

Outro momento impactante foi a premiação do documentário “The Voice of Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania, com o Grande Prêmio do Júri. O longa reconstitui o último contato de uma menina palestina de seis anos, encurralada durante um ataque em Gaza, com as equipes de resgate. Utilizando áudios reais da ligação telefônica, o filme abalou os espectadores, recebendo uma ovação de cerca de 23 minutos — uma das mais longas da história do festival. A obra, produzida por grandes nomes de Hollywood, como Alfonso Cuarón, Brad Pitt e Joaquin Phoenix, tornou-se símbolo da força do cinema político e humanitário em Veneza.

Surpresa

O Leão de Prata de Melhor Direção foi para Benny Safdie, com “The Smashing Machine”, protagonizado por Dwayne Johnson. O astro de Hollywood surpreendeu com sua performance como um lutador de MMA, entregando uma das atuações mais intensas de sua carreira. Na exibição de estreia, Johnson foi ovacionado e chorou com os aplausos recebidos, saindo de Veneza como uma das apostas para o Oscar 2026. Já o Prêmio Especial do Júri foi para “Below the Clouds”, de Gianfranco Rosi, uma exaltação repleta de poesia à vida cotidiana em Nápoles, reafirmando a habilidade do diretor em transformar o ordinário em arte.

Atuações

Entre as atuações premiadas, a Volpi Cup de Melhor Atriz foi para a chinesa Xin Zhilei, pelo drama “The Sun Rises on Us All”, e a de Melhor Ator foi para o veterano italiano Toni Servillo, pelo filme La Grazia, de Paolo Sorrentino, consolidando uma parceria de décadas entre ator e cineasta. O prêmio de Melhor Roteiro foi concedido a “At Work” (À pied d’œuvre), escrito por Valérie Donzelli e Gilles Marchand, enquanto o Prêmio Marcello Mastroianni para jovem revelação ficou com Luna Wedler, de “Silent Friend”.

Tapete Vermelho

Cerca de 5.000 manifestantes pró-Palestina ocuparam os arredores do festival, exibindo faixas e gritos contra a guerra em Gaza enquanto os convidados passavam pelo tapete vermelho. A polícia precisou reforçar a segurança e erguer barricadas, transformando a passarela das estrelas num espaço de tensão política. Mesmo diante da inquietação provocada, Alberto Barbera, diretor artístico do festival, defendeu que a mostra deve ser “um espaço de abertura e diálogo”, não de censura, reforçando assim que o evento transcendeu as barreiras da sétima arte, se posicionando como um acontecimento cultural e social de grande impacto.

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