COMÉDIA AMERICANA É A GRANDE VENCEDORA DO FESTIVAL DE CANNES 2024

A 77ª edição do Festival de Cannes , que todos os anos reúne a nata da indústria cinematográfica mundial,  chegou ao fim em 25/05. Além de revelar talentos e apontar revelações e tendências dentro do universo da sétima arte, seu tradicional tapete vermelho é disputado por celebridades de todos os quilates em busca de um lugar no panteão da fama e dos likes. Não é à toa que nos últimos anos, nomes conhecidos nas redes sociais, inclusive brasileiros, são presença garantida, disputando flashes e ajudando a alimentar o burburinho, o glamour e a repercussão do evento.  Nesta edição, o ganhador da Palma de Ouro foi o longa “Anora”, do estadunidense Sean Baker, nome de destaque no circuito alternativo. A película narra a trajetória de uma stripper, interpretada por Mikey Madison, que se casa em Las Vegas com o jovem herdeiro de um oligarca russo (Mark Eydelshteyn)  para desespero da família do rapaz. O tom de comédia e uma trama que remete a clássica história da Cinderela, revitalizada com uma temática sexual, são apenas o ponto de partida para discutir questões mais profundas, como preconceito e as desigualdades sociais. “Este filme é magnífico, está cheio de humanidade […] nos dilacerou”, declarou a presidente do júri, a diretora Greta Gerwig (“Barbie”).

A diretora indiana Payal Kapadia foi a vencedora do “Grand Prix”, o segundo prêmio mais importante da competição, por “All We Imagine as Light”, um ensaio sobre solidariedade entre mulheres.  Vale registrar que esta é a primeira produção do país a integrar a seleção oficial em 30 anos. Já a Câmera de Ouro, honraria concedida aos estreantes no festival, foi para “Armand”, de Halfdan Ullmann Tondel, neto do cineasta Ingmar Bergman e da atriz Liv Ullmann.  Já o diretor português Miguel Gomes faturou o prêmio de direção por Grand Tour, um tratado sobre as sequelas do colonialismo. E Mohammad Rasoulof, que está exilado na França após fugir clandestinamente do Irã, onde foi condenado a oito anos de prisão por crimes contra a segurança nacional por produzir filmes sem autorização do governo, recebeu o prêmio especial do júri por “The Seed of The Sacred Fig”, que mostra o processo de paranoia de um juiz, que se volta contra suas filhas e sua mulher. O prêmio de melhor roteiro foi para “The Substance”, da francesa Coralie Fargeat. Estrelado por Demi Moore na pele de uma estrela decadente, o filme mostra os efeitos colaterais de um misterioso elixir para rejuvenescer consumido por ela.

Entre as atuações, merece menção a vitória do ator  Jesse Plemons, por “Tipos de Gentileza”, de Yorgos Lanthimos (“Pobres Criaturas”), onde interpreta três papeis distintos, e um prêmio conjunto para cinco atrizes que integraram o elenco do longa “Emilia Pérez”:  Adriana Paz, Zoe Saldaña, Selena Gomez e Karla Sofía Gascón. Esta última, inclusive, se tornou a primeira mulher transgênero a ser premiada na categoria, e dedicou a estatueta a todas as pessoas trans, que sofrem diariamente com o preconceito e a transfobia. Já o diretor da produção, que acompanha a transição de gênero de um chefão de um cartel do tráfico, o francês Jacques Audiard (O Profeta), foi laureado com o prêmio do júri, outra honraria de destaque.

Na categoria documentário, ficaram empatadas asa produções “Les Filles du Nil”, de Nada Riyadh e Ayman El Amir, que aborda a formação de uma trupe teatral só de mulheres, e “Ernest Cole, Lost And Found”, de Raoul Peck, que apresenta as imagens contundentes feitas por um fotógrafo sul-africano durante o regime do Apartheid.

Prêmio Honorário

Na cerimônia de encerramento da mostra, o diretor americano George Lucas, criador da saga “Guerra nas Estrelas” recebeu a Palma de Ouro honorária das mãos do amigo, o também cineasta Francis Ford Coppola. A direção do festival justificou a homenagem afirmando que Lucas deu “prazer sem igual” aos espectadores de todo o mundo. Segundo os organizadores, “esta lenda viva de Hollywood, de 80 anos, engrandeceu os blockbusters. O festival, inclusive, comparou o cineasta ao célebre escritor J.R.R. Tolkien, criador da saga “O Senhor dos Anéis” por imaginar um universo com sua geografia, populações, idiomas, valores morais e, inclusive, veículos”. “Fui apenas um menino que cresceu nos campos da Califórnia e queria fazer filmes”, declarou Lucas em seu discurso de agradecimento.

Brasil

O Brasil também esteve presente no Festival com a exibição do longa Motel Destino, de Karim Aïnouz. Mas o grande destaque nacional foi Ricardo Teodoro premiado na Semana da Crítica como Ator Revelação por sua performance em “Baby”, de Marcelo Caetano, que foca no tema das novas configurações familiares, nem sempre consanguíneas,  que tem o centro de São Paulo como cenário. Esta mostra paralela tem como mote prestigiar filmes que propõe novas formas de olhar e contar histórias.

Confirma abaixo a lista dos vencedores

Palma de Ouro: “Anora”, de Sean Baker

Grande Prêmio do Júri: “All We Imagine As Light”, de Payal Kapadia

Prêmio do Júri: “Emilia Perez”, de Jacques Audiard

Prêmio Especial do Júri: “The Seed of the Sacred Fig”, de Mohammad Rasoulof

Direção: Miguel Gomes, por “Grand Tour”

Roteiro: Coralie Fargeat, por “The Substance”

Atriz: Elenco feminino de “Emilia Perez”

Ator: Jesse Plemons, por “Tipos de Gentileza”

Camêra D’dor (melhor filme de estreante): “Armand”, de Halfdan Ullmann Tondel, com menção especial a “Mongrel”

Palma De Curta-Metragem: “The Man Who Could Not Remain Silent”, de Nebojsa Slijepcevic (Croácia), com menção especial para “Bad For a Moment”

Documentário: “Les Filles du Nil”, de Nada Riyadh e Ayman El Amir, e “Ernest Cole, Lost And Found”, de Raoul Peck

Queer Palm: “Three Kilometers To The End Of The World”, de Emanuel Parvu

Prêmio do Júri Ecumênico: “The Seed Of The Sacred Fig”

Prêmio da Crítica (FIPRESCI): “The Seed Of The Sacred Fig”

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